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Como parar de pensar em algo?

  • Foto do escritor: Fabricio Brito Silva
    Fabricio Brito Silva
  • 22 de jan.
  • 3 min de leitura

A pergunta “como parar de pensar em algo” ganha contornos ainda mais profundos quando observada a partir de um viés neuropsicanalítico, pois, nesse campo, o pensamento repetitivo deixa de ser apenas um ruído mental e passa a ser compreendido como expressão de conflitos psíquicos, afetos não elaborados e circuitos cerebrais de autorregulação emocional.

Uma mulher pensando na praia no término do relacionamento

Na psicanálise clássica, inaugurada por Sigmund Freud, a repetição nunca é acidental. Freud observou que a mente tende a retornar, de forma insistente, a conteúdos ligados a experiências emocionalmente marcantes, especialmente quando essas experiências não puderam ser simbolizadas ou elaboradas no momento em que ocorreram. Pensar repetidamente não é, portanto, um defeito da mente, mas uma tentativa do aparelho psíquico de dar forma, sentido e destino a algo que permanece em aberto.


A neurociência contemporânea reforça essa leitura ao demonstrar que pensamentos persistentes costumam recrutar circuitos cerebrais associados à memória autobiográfica, emoção e auto-referência. Pesquisas conduzidas por Mark Solms, da University of Cape Town, mostram que os sistemas emocionais profundos do cérebro — especialmente os ligados à motivação, ao apego e à ameaça — operam antes da linguagem e da racionalização consciente. Quando esses sistemas são ativados por perdas, frustrações ou conflitos relacionais, o pensamento surge como tentativa tardia de organização.


Do ponto de vista neuropsicanalítico, tentar “parar de pensar” equivale a tentar silenciar um sintoma sem escutar sua função. O pensamento retorna porque carrega um afeto que ainda não encontrou via de elaboração. Isso explica por que temas ligados a vínculos amorosos, rejeição, fracasso ou culpa são tão recorrentes entre jovens e adultos. Não se trata apenas de lembrar, mas de reviver estados emocionais associados a experiências de apego e identidade.


A teoria do funcionamento cerebral ajuda a entender esse processo. Estados de ruminação estão frequentemente associados à ativação da Default Mode Network, rede envolvida na autoimagem e na narrativa pessoal. Quando essa rede se articula com sistemas emocionais subcorticais, o sujeito não apenas pensa sobre o problema, mas se sente novamente dentro dele. A mente não está “errando”; está tentando integrar emoção e significado.


Nesse contexto, a abordagem neuropsicanalítica não propõe a supressão do pensamento, mas sua transformação simbólica. Pensar deixa de ser um circuito fechado e passa a ser um caminho de elaboração. Isso ocorre quando o pensamento é acolhido, verbalizado, associado a afetos e colocado em relação com a história do sujeito. O que antes retornava como repetição passa a ser metabolizado como narrativa.


O corpo desempenha papel central nesse processo. A neuropsicanálise reconhece que o psiquismo é inseparável da regulação corporal. Estados de hiperativação fisiológica mantêm o cérebro em modo de vigilância emocional, favorecendo pensamentos circulares. Técnicas que envolvem respiração, consciência corporal e desaceleração do ritmo interno não “resolvem” o conflito, mas criam as condições neurofisiológicas para que ele possa ser elaborado.


Um exemplo prático e bastante comum entre jovens e adultos ocorre após o término de um relacionamento afetivo. A pessoa decide que precisa “parar de pensar” no ex-parceiro, apaga mensagens, evita lugares e repete mentalmente que aquele capítulo está encerrado. No entanto, nos momentos de silêncio — antes de dormir, no banho ou ao acordar — as lembranças retornam com força ainda maior. Esse efeito foi descrito pelo psicólogo Daniel Wegner, da Harvard University, ao demonstrar que a tentativa ativa de suprimir pensamentos exige um monitoramento constante, que acaba reativando o próprio conteúdo indesejado. Quando, em vez disso, a pessoa reconhece o pensamento como uma lembrança esperada de um vínculo significativo — sem se engajar emocionalmente nem tentar expulsá-lo — e desloca a atenção para uma atividade concreta, como caminhar, organizar tarefas ou focar na respiração, a intensidade das recordações tende a diminuir progressivamente. O pensamento não desaparece de imediato, mas perde centralidade, permitindo que a mente retome seu curso natural.


Quando o pensamento é observado sem tentativa imediata de controle, ele frequentemente perde rigidez e começa a se associar a outras memórias, imagens e afetos. É nesse movimento que ocorre o trabalho psíquico. O objetivo não é parar de pensar, mas permitir que o pensamento deixe de ser repetição e se torne elaboração.

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